4. ECONOMIA 23.1.13

AS TRMICAS A TODO O VAPOR
O Brasil  lder na produo de energia a partir de fontes limpas e renovveis. Mas a falta de chuvas e de investimentos em hidreltricas fora o pas a usar cada vez mais as trmicas movidas a combustveis fsseis.
MARCELO SAKATA E ANA LUIZA DALTRO

	O ano comeou com o governo confiando no histrico do regime de chuvas e na meteorologia para afastar o risco do racionamento de energia. De fato, os primeiros dias de janeiro vieram acompanhados de chuvas, que voltaram a elevar, ainda que timidamente, os reservatrios das usinas hidreltricas.  Ainda assim, apenas em abril, no fim do perodo mido, ser possvel diagnosticar com preciso o quadro para o abastecimento ao longo de 2013 e 1014. At l. As usinas termeltricas vo continuar a desempenhar papel fundamental para o parque gerador nacional, evitando por ora a necessidade de reduo forada do consumo.  Movidas pela queima de combustveis fsseis, como o gs natural, o carvo mineral e o leo, as trmicas respondem hoje por quase 15% da eletricidade no pas. Trata-se de um patamar superior ao do padro histrico justamente porque o baixo nvel dos reservatrios reduziu a gerao pela fonte hidrulica. O uso das termeltricas faz parte de um modelo concebido depois da crise energtica  e do subsequente racionamento  de 2001, quando ficou evidente a necessidade de aumentar a segurana na oferta de eletricidade. O governo decidiu incentivar a construo de novas trmicas, cuja vantagem  no dependerem das variaes climticas para funcionar, ainda que o seu custo de operao e o impacto ambiental sejam maiores. No caso das usinas movidas a leo diesel, o custo de gerao foi em mdia 66% maior do que  o da energia produzida em hidreltricas desde 2005, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energtica (EPE). Um levantamento da consultoria Andrade & Canellas d uma dimenso da expanso das trmicas. Em 2001, havia 53 usinas desse tipo, com capacidade de 5100 megawatts (MW). No ano passado, esses nmeros haviam saltado para mais de 1100 usinas, aptas a produzir 21.400 MW. Em termos relativos, ao longo de 2001, ano do racionamento, a gerao trmica movida a combustveis fsseis respondeu por 6% do total produzido. Em 2013, o porcentual dever se aproximar dos 20%.
     O uso das trmicas contribui para regular o nvel das represas. Quando elas so acionadas, diminui a necessidade de gerao das hidreltricas, aliviando a presso sobre o nvel da gua. Essas usinas, assim, podem ser consideradas um seguro a ser empregado em perodos de queda nos reservatrios. Nos ltimos anos, independentemente do regime de chuvas, elas tm ganhado importncia no fornecimento energtico. Por presso de ambientalistas, o governo abriu mo, na ltima dcada, de construir colossos como Itaipu, na divisa do Paran com o Paraguai, ou Tucuru, no Par, cujas represas servem de poupana para os meses de estiagem. O resultado  que a capacidade somada de armazenamento de gua no acompanha o crescimento do consumo no pas. No fim dos anos 80, as represas eram capazes de garantir um ano de abastecimento. Hoje, o perodo no passa de cinco meses. Assim,  necessrio ativar com uma frequncia maior as trmicas, sobretudo em anos de poucas chuvas.
     O modelo que reforou a relevncia das termeltricas  motivo de crticas. O planejamento est equivocado, afirma Ildo Sauer, professor do Instituto de Eletrotcnica e Energia da Universidade de So Paulo. Para Sauer, o pas deveria ter um nmero maior de hidreltricas, com grandes reservatrios, e de parques de energia elica, para no precisar utilizar tanto as usinas trmicas. Mas ele reconhece:  ruim ter de us-las, mas seria ainda pior no t-las  disposio neste momento.
     Se os reservatrios esto cheios, as termeltricas ficam paradas e cobram uma tarifa para amortizar o investimento e cobrir a manuteno. Quando so postas para operar, elas recebem um valor adicional, relativo ao custo do combustvel. O custo para manter todas as trmicas em atividade, como ocorre agora,  da ordem de 900 milhes de reais por ms. O montante ser repassado posteriormente  conta dos consumidores. Pelas regras atuais, essa fatura vir na conta de luz na forma de um encargo, a partir do prximo reajuste de cada distribuidora. Outra possibilidade  o governo obrigar o Tesouro a assumir essa despesa. Para as distribuidoras de energia, no entanto, a conta j chegou, isso porque elas so obrigadas a pagar  vista pelo uso da energia gerada pelas trmicas, mesmo que s possam cobrar dos consumidores na data-base do reajuste. Para algumas distribuidoras, a despesa com as trmicas chega a superar a gerao de caixa. Isso significa que a situao atual pode no s afetar os investimentos como lev-las a um caso extremo de inadimplncia, diz Marco Delgado, diretor da Associao Brasileira de Distribuidores de Energia Eltrica (Abradee).
     A despeito do custo, as trmicas, mais rpidas de ser construdas, devero se multiplicar pelo pas nos prximos anos. Apenas em 2013, mais de uma dezena delas entrar em operao, contribuindo para afastar o risco de um novo racionamento. A boa notcia  que novas tecnologias reduziram o impacto ambiental dessas usinas, sobretudo nas movidas a carvo mineral. Um exemplo  o do complexo de Candiota, no Rio Grande do Sul, cidade dona da principal jazida de carvo do Brasil. A m fama do carvo  muito ligada s termeltricas antigas, que no contavam com as tecnologias atuais, diz Marcus Temke, diretor de operao da MPX. A empresa do bilionrio Eike Batista na rea de energia possui uma termeltrica a carvo em funcionamento em Pecm, no Cear, que  tida como referncia no setor (veja o quadro acima). A usina possui equipamentos destinados a evitar o despejo de poluentes na atmosfera.
     De acordo com Mauricio Tolmasquim, presidente da EPE, a empresa pblica responsvel pelo planejamento do setor, as trmicas mantero uma fatia entre 15% e 20% da energia produzida no pas. O porcentual  baixo em relao ao dos Estados Unidos ou da China, pases nos quais mais de dois teros da eletricidade possuem origem fssil, mas nunca foi to elevado no Brasil e representar um novo desafio. Para os projetos que sero entregues nos prximos anos, no h gs suficiente. Precisamos ampliar a produo interna desse combustvel, afirma Tomalsquim. A alternativa ser ampliar a importao de gs, a um preo ainda mais elevado. 

O BRASIL MAIS DEPENDENTE DAS TRMICA
Fontes de gerao eltrica, em % do total
2001
Nuclear  4,3%
Trmica  6,0%
Hidreltrica  89,7%

2012
Elica  1,7%
Nuclear  1,7%
Trmica  13,9%
Hidreltrica  77,6%
Outros  5,1%
Fontes: ONS e consultorias

O CUSTO em reais por megawatt-hora (MWh)
Trmica a leo diesel  193 
Nuclear  177 
Trmica a carvo  171 
Trmica a gs natural  155 
Elica  137 
Hidreltrica  116
Fontes: Empresa de Pesquisa de Energtica e Agncia Europeia do Ambiente.

O CARVO LIMPO
A termeltrica Pecm II, no Cear, foi projetada para reduzir ao mximo a emisso de poluentes.
1- O moinho pulveriza o carvo a ser queimado, de forma a reduzir desperdcios e a fuga de resduos para a atmosfera.
2- As caldeiras possuem queimadores de alta eficincia, capazes de diminuir as emisses de xidos de nitrognio em 75%.
3- O calor produzido pela queima do carvo  absorvido pela caldeira e aquece a gua. O vapor em alta temperatura e presso movimenta as turbinas, acionando o gerador de energia.
4- O dessulfurizador, que utiliza cal como reagente, elimina em 90% a emisso de xidos de enxofre.
5- Os filtros de mangas separam as partculas slidas.

A POLUIO Emisso de poluentes, em gramas por magawatt-hora (MWh)
Gs carbnico (CO2) - Responsvel pelo efeito estufa
Carvo mineral 26.300
leo combustvel 21.500
Gs natural 15.600

Dixido de enxofre (SO2) - Gs txico, provoca doenas respiratrias
Carvo mineral 213
leo combustvel 375
Gs natural 0,2


